domingo, 31 de julho de 2011

"Vem, cara, me repara"

         
        
         Pode vir, sem medo. Já lhe abri a porta, basta entrar.
        Venha, não fique aí parado. Já disse, não precisa ter medo. Dizem que sou forte, mas só quando necessário. Não vou lhe machucar. No fundo, sou mesmo menina. Preciso que venha pra cuidar de mim.
        Venha, não é difícil, nem sou assim tão misteriosa quanto pareço. Sou transparente, mas só para quem merece ver. E eu sei que você merece, sei que você quer. Sei, porque somos iguais. Pequenos.
        Venha, sei que quer entrar. Me tome, beba, engula.
        Veja, tudo isso é meu, mas posso repartir. E escolhi você pra isso.
        Não se esconda. Nem me esconda. Participe. Faça. Seja. Viva também em meu mundo. Me deixe viver o seu. E não se perca de mim, dentro de ti. E não se perca de ti, dentro de si próprio, nem se perca em mim.
        Viu, não sou tão complicada. Não vivo de segredos. Só de mim. Do meu mundo, que pode ser seu, se quiser. Assim como quero que você seja meu, seja dele, viva em mim, viva nele, viva em si próprio, sendo assim, quem és, sem segredos, sem esconderijos.
        Venha, sei que quer entrar. Me tome, beba, engula. E se tome, se beba, engula. Sacie-se para me saciar.
        “Só não se perca ao entrar no meu infinito particular.”

(Luana Camargo – Última frase retirada da música de Marisa Monte)


Medo


Você tem medo de se apaixonar. Medo de sofrer o que não está acostumada. Medo de se conhecer e esquecer outra vez. Medo de sacrificar a amizade. Medo de perder a vontade de trabalhar, de aguardar que alguma coisa mude de repente, de alterar o trajeto para apressar encontros. Medo se o telefone toca, se o telefone não toca. Medo da curiosidade, de ouvir o nome dele em qualquer conversa. Medo de inventar desculpa para se ver livre do medo. Medo de se sentir observada em excesso, de descobrir que a nudez ainda é pouca perto de um olhar insistente. Não suportar ser olhada com esmero e devoção. Nem os anjos, nem Deus agüentam uma reza por mais de duas horas. Medo de ser engolida como se fosse líquido, de ser beijada como se fosse líquen, de ser tragada como se fosse leve. Você tem medo de se apaixonar por si mesma logo agora que tinha desistido de sua vida. Medo de enfrentar a infância, o seio que criou para aquecer as mãos quando criança, medo de ser a última a vir para a mesa, a última a voltar da rua, a última a chorar. Você tem medo de se apaixonar e não prever o que pode sumir, o que pode desaparecer. Medo de se roubar para dar a ele, de ser roubada e pedir de volta. Medo de que ele seja um canalha, medo de que seja um poeta, medo de que seja amoroso, medo de que seja um pilantra, incerta do que realmente quer, talvez todos em um único homem, todos um pouco por dia. Medo do imprevisível que foi planejado. Medo de que ele morda os lábios e prove o seu sangue. Você tem medo de oferecer o lado mais fraco do corpo. O corpo mais lado da fraqueza. Medo de que ele seja o homem certo na hora errada, a hora certa para o homem errado. Medo de se ultrapassar e se esperar por anos, até que você antes disso e você depois disso possam se coincidir novamente. Medo de largar o tédio, afinal você e o tédio enfim se entendiam. Medo de que ele inspire a violência da posse, a violência do egoísmo, que não queira repartir ele com mais ninguém, nem com seu passado. Medo de que não queira se repartir com mais ninguém, além dele. Medo de que ele seja melhor do que suas respostas, pior do que as suas dúvidas. Medo de que ele não seja vulgar para escorraçar mas deliciosamente rude para chamar, que ele se vire para não dormir, que ele se acorde ao escutar sua voz. Medo de ser sugada como se fosse pólen, soprada como se fosse brasa, recolhida como se fosse paz. Medo de ser destruída, aniquilada, devastada e não reclamar da beleza das ruínas. Medo de ser antecipada e ficar sem ter o que dizer. Medo de não ser interessante o suficiente para prender sua atenção. Medo da independência dele, de sua algazarra, de sua facilidade em fazer amigas. Medo de que ele não precise de você. Medo de ser uma brincadeira dele quando fala sério ou que banque o sério quando faz uma brincadeira. Medo do cheiro dos travesseiros. Medo do cheiro das roupas. Medo do cheiro nos cabelos. Medo de não respirar sem recuar. Medo de que o medo de entrar no medo seja maior do que o medo de sair do medo. Medo de não ser convincente na cama, persuasiva no silêncio, carente no fôlego. Medo de que a alegria seja apreensão, de que o contentamento seja ansiedade. Medo de não soltar as pernas das pernas dele. Medo de soltar as pernas das pernas dele. Medo de convidá-lo a entrar, medo de deixá-lo ir. Medo da vergonha que vem junto da sinceridade. Medo da perfeição que não interessa. Medo de machucar, ferir, agredir para não ser machucada, ferida, agredida. Medo de estragar a felicidade por não merecê-la. Medo de não mastigar a felicidade por respeito. Medo de passar pela felicidade sem reconhecê-la. Medo do cansaço de parecer inteligente quando não há o que opinar. Medo de interromper o que recém iniciou, de começar o que terminou. Medo de faltar às aulas e mentir como foram. Medo do aniversário sem ele por perto, dos bares e das baladas sem ele por perto, do convívio sem alguém para se mostrar. Medo de enlouquecer sozinha. Não há nada mais triste do que enlouquecer sozinha. Você tem medo de já estar apaixonada.

(Fabrício Carpinejar)


quinta-feira, 21 de julho de 2011

Pulsante


         
          A menina sabia o que estava acontecendo, mas não podia parar. Ela ia, caminhava, tentando se distrair e disfarçar a dor. Ela precisava de ajuda e sabia disso, mas não queria. Admitia que chorar era um mal necessário, mas dentro de si havia uma paz e uma alegria que soavam ironicamente.
         E continuava andando sem saber pra onde estava indo. Só importava ir, não parar. Deixava o rastro de seu sangue pingando pelo chão. Ao redor parecia deserto, vazio. Sentia-se sozinha.
         Ele à tinha tomado nas mãos. Ele havia pego o seu melhor. Ele recolheu seu coração com mãos acalentadoras e, um belo dia, o esmagou. Agora ele estava ali, nas mãos da menina, que já não o sentia pulsar dentro de si, mas podia ver, podia ouvir.
         Ela não sabia o que fazer. Sozinha não podia, mas não havia ninguém que parecesse saber realmente como ajudar. Muitos tentavam estancar a ferida, mas o curativo ensopa e o sangue volta a pingar.
         Então a menina resolveu que é hora de parar. Senta-se no chão. Desembrulha o coração. Observa. Ele pulsa, tentando e querendo resistir. E ela, que não sabe o que fazer, continua ali, só olhando.
         E ele pulsa, forte, quase um grito de desespero, sabendo que esse é só o começo. Ele vai voltar pra dentro dela, vai sorrir com ela, e ela vai desejar que ele pare outras vezes.

Luana Camargo


Dedico a ela. E a todas que se sentem assim. Porque só nós sabemos quão forte é a nossa dor.


domingo, 17 de julho de 2011

Paixão de vinte minutos


E me chega assim, e se senta aqui, e me olha assim. E toma nas mãos o principal motivo que chamou minha atenção: violão! E vai, de mansinho, começando bem baixinho, pra que só eu possa ouvir. Na hora me ganha. Não é preciso mais nada. Dispensa qualquer coisa que poderia ser dita. Fecho os olhos e parece que nada mais existe. Só eu e o som. A música.
O coração começa a bater ritmado, compassado. O sangue começa a falar mais alto e logo reconheço. Não sei como, mas acertou. O mistério, o instrumento, a música.
Abro os olhos e é quase impossível me controlar. Vontade de ficar ali, pra sempre. E é quando me surpreendo novamente, ao ouvir a sua voz. E que voz! De onde você veio, para onde você vai? Posso ir também?
E no meio da multidão, você some. Vamos, separados, outros lugares. Temos que ir.  Pra onde? Volte e toque, como nunca tocou antes. Toque mais, toque sempre! Pra que eu possa ouvir. Mas você não está mais. Miragem?
Ainda assim, pelo resto do dia eu pude ouvir. O som, a música, a voz.
Flamenco!

(Luana Camargo)


Libertação

Mais uma vez, no fim do post há o vídeo que me levou a escrever este texto. Por favor, assistam, leiam a tradução. Não é só sobre ela, a autora e intérprete da música, mas posso dizer que é sobre mim também. Beijos.


Hoje eu quero colocar tudo na mesa. Todas as cartas serão dadas. Quero me livrar, me libertar de mim.
Eu me prendo. Eu sempre me prendi. A coisas que eu penso, que eu sinto, e até que eu imagino. A coisas que os outros pensam, que os outros sentem, que os outros imaginam.
Quero me erguer. Sei que posso. Vou me colocar no topo, em um lugar onde eu possa ver a mais bela paisagem, onde eu possa sentir o tempo passar em mim, onde eu possa ser.
Muitos vão tentar me tirar de lá, eu sei. Talvez até eu mesma tenha ainda a vontade de saltar no nada, de me afogar, de não mais me sentir. Mas eu sempre vou voltar.
Outras vezes eu já disse que penso gostar de me machucar. Não no sentido masoquista, auto-mutilação. Mas me magoando. Procurando motivos pra chorar. Me colocando cada vez mais no fundo.
Só que eu cansei. Não quero mais. Eu bem sei que não vou conseguir estabilidade emocional. Sei que vou me derrubar ainda muitas vezes. Sei que VÃO me destruir, vão me quebrar, vão me rasgar. Sei que vou sangrar. Sei que vou chorar. Mas agora é diferente. Agora eu sei que posso continuar de pé. Sei que consigo cair e levantar. Os machucados, as cicatrizes vão ficar. Vão me fazer lembrar os motivos, as pessoas, lembrar de mim. Não vão me deixar esquecer quem eu fui, quem eu sou, quem eu quero ser.
As lágrimas rolaram. Caíram. Queimaram. Durante anos e anos foi assim. Mas eu desisto da infelicidade. Eu quero sorrir independente de qualquer coisa que possa acontecer, de qualquer coisa que me digam ou queiram me fazer pensar. Eu quero e VOU acreditar. Na vida. Em mim. Em Deus.
Eu continuo aqui por isso. Eu vou subindo, vou me reerguendo, mesmo depois dos tapas na cara, mesmo que outros venham atrás de mim querendo me puxar pra baixo mais uma vez.
Não, eu não tenho mais medo de me arriscar. Eu vou atrás. E quem quiser que venha também. Trago comigo somente a força: de quem me ama e de quem me criou. Criador e criatura.
Por isso, pode continuar. Fale, faça, pense o que quiser sobre mim, sobre o que eu faço, sobre o que eu digo. Me derrube. Me deixe marcada. Pare e assista enquanto eu sangro. E admire boquiaberto enquanto eu levanto, enquanto eu me curo, enquanto eu cresço.

(Luana Camargo)


sábado, 16 de julho de 2011

Feias bonitas

Ficar bonitinha, muitas conseguem, mas ter algo é para poucas. Não dá para encomendar num consultório de cirurgia plástica.
Se você não é nenhuma Gisele Bündchen, não há motivo para se desesperar em frente ao espelho. Quem dera ser uma deusa, mas não sendo, há chance de ser incluída no time das interessantes. Junte nove lindas e uma mulher interessante e será ela quem vai se destacar entre as representantes do marasmo estético. Perfeição, você sabe, entedia.
Mulher interessante é aquela que não nasceu com tudo no lugar, a não ser a cabeça - e, às vezes, nem isso, pois as malucas também têm um charme diabólico. A mulher interessante não é propriamente bonita, mas tem personalidade, tem postura, tem um enigma no fundo dos olhos, uma malícia que inquieta a todos quando sorri - e um nariz diferente. São também conhecidas como feias bonitas.
Eu poderia citar um batalhão de feias bonitas que, aqui no Brasil, são públicas e notórias, mas vá que elas não considerem isso um elogio. Então vou dar um exemplo clássico que vive a quilômetros de distância: Sarah Jessica Parker. É uma feia lindona. Uma feia classuda. Uma feia surpreendente. Adoro este tipo de visual. Mulheres com rostos difíceis de classificar, que não se enquadram em nenhum padrão.
Quando Meryl Streep estreou como coadjuvante em Manhattan, filme de Woody Allen, chamou a atenção não só pelo talento, mas pelo seu ar blasé, seu porte altivo e uma sobrancelha que arqueava interrogativamente, como se perguntasse: e aí, você já decidiu se lhe agrado ou não? Paralisante.
Esse gênero de mulher não figura nos anúncios da Lancôme e não possui um rosto desenhado com fita métrica: olhos, boca e nariz a uma distância equilibrada um dos outros. Nada disso. A feia bonita é aquela que não causa uma excelente impressão à primeira vista. Ao contrário, causa estranhamento. As pessoas se questionam. O que é que essa mulher tem? Ela tem algo. Pronome indefinido: algo.
Ficar bonitinha, muitas conseguem, mas ter algo é para poucas. Não dá para encomendar num consultório de cirurgia plástica. Não adianta musculação, dieta, hidratantes. Feias bonitas têm a boca larga demais. Ou um leve estrabismo. Ou um nariz adunco. Ou seja, este algo que elas têm é algo errado. Mas que funciona escandalosamente bem.
E há aquelas que não têm nada de errado, mas também nada de relevante. Um zero a zero completo, e ainda assim se destacam. Um exemplo? Aquela menina que atuou em Homem-Aranha e Maria Antonieta, a Kirsten Dunst. Jamais será uma Michelle Pfiefer, mas a menina tem algo. Quem dera esse algo fosse vendido em frascos nos freeshops da vida.
Se o fato de ser uma feia bonita é, digamos, uma ótima compensação, ser um feio bonito é o prêmio máximo. Não sei se você concorda, mas eles são mais atraentes que os bonitos bonitos. Não que seja tolerável um narigão num homem: ele tem que ter um! Nada de baby face. É obrigatório uma cicatriz, ou um queixo pronunciado, um olhar caído. Você está lembrando de um monte de cafajestes, eu sei. Ou de um monte de italianos. É esse tipo mesmo, você pegou o espírito da coisa.
Feias bonitas e feios bonitos tornam a vida mais generosa, democrática, divertida e interessante. Não podemos ter tudo, mas algo se pode ter.
(Martha Medeiros)